Trecho do rio Capibaribe no Recife - PE

terça-feira, 5 de agosto de 2014



Como criar espaço? Quando você tiver alguns minutos, olhe adiante de você e simplesmente imagine que você está cercado por um espaço vazio em todas as direções. Se você puder ver o céu vazio através de uma janela, em seguida, olhar para o céu... mas, se não, tudo bem. Apenas imagine espaço em todos os lugares: sem paredes, sem fronteiras, sem edifícios, nada. Não comece a pensar sobre o trabalho, a família, as coisas que você precisa fazer. Basta imaginar que tudo é exatamente como o vasto céu, aberto, como o espaço vazio, e deixe sua mente se misturar ao espaço de modo que ela se torne tão vasta e aberta. Você pode fechar seus olhos, se isso ajuda. Visualize este espaço por um tempo curto. Depois de um minuto ou dois, você vai começar a sentir realmente "espaciosidade" mentalmente. Seu peito se abrirá e você vai se sentir aliviado(a) de todas aquelas tensões e pensamentos que se aglomeravam em você a poucos minutos atrás. Sua mente se abre e, em seguida, o seu modo de pensar muda, exatamente assim. Leva apenas cinco ou dez minutos e é tão fácil - esta é a magia de criar espaço. Você não tem que acreditar em mim. Tente você mesmo e você vai ver.

Quando você sentir o espaço em seu coração depois de fazer isso por alguns minutos, mantenha isso e descanse ali. Esse é o ponto crucial.

Original em: http://whatmeditationreallyis.com/index.php/home-blog/item/498-phakchok-rinpoche-creating-space-daily-life.html

Phakchok Rinpoche writes: 


How to create space? When you have a few minutes, look ahead of you and simply imagine that you are surrounded by empty space in all directions. If you can see the empty sky through a window then look at the sky, but if not that is fine. Just imagine space everywhere: no walls, no boundaries, no buildings, nothing. Don’t start thinking about work, family, things you need to do. Simply imagine that everything is just like the vast, open sky, like empty space, and let your mind blend into the space so that it becomes just as vast and open. You can close your eyes if that helps. Visualize this spaciousness for a short while. After a minute or two you’ll start to really feel spacious mentally. Your chest will open up and you’ll feel relieved of all those tensions and thoughts that were crowding in on you just a few minutes ago. Your mind opens up and then your way of thinking changes, just like that. It takes just five or ten minutes and is so easy—that is the magic of creating space. You don’t have to believe me. Try it for yourself and you will see.

When you feel the spaciousness in your heart after doing this for a few minutes, maintain that and rest there. That is the crucial point.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Amor e Compaixão


"Nós podemos rejeitar tudo: religião, ideologia, toda a sabedoria recebida. 

Mas, nós não podemos escapar da necessidade de amor e compaixão. 
Isto, então, é minha religião, minha simples fé. 
Nesse sentido, não há necessidade de templo ou  igreja, de mesquita ou sinagoga, não há necessidade de nenhuma filosofia complicada, doutrina ou dogma. 
Nosso próprio coração, nossa própria mente, é o templo.
A doutrina é compaixão. Amor pelos outros e respeito por seus direitos e dignidade, não importa quem ou o que eles são: finalmente isto é tudo o que necessitamos.
Contanto que pratiquemos isto em nossos cotidianos, então não importa se nós  aprendemos ou desaprendemos, se nós acreditamos em Buda ou Deus, ou seguimos alguma outra religião ou nenhuma, enquanto temos compaixão pelos outros e nos conduzimos com moderação de senso de responsabilidade, não há dúvida, nós seremos felizes" (S.S. XIV Dalai Lama)

sábado, 8 de junho de 2013

O QUE É ESTE SER CHAMADO "EU"?



Segundo a literatura budista clássica, podemos encarar uma pessoa como aquele ente que possui cinco agregados interligados, conhecidos tecnicamente como cinco agregados psicofísicos. Os cinco agregados são: o agregado da consciência, o agregado da forma (que inclui o corpo físico e os sentidos corporais), o agregado das sensações, o agregado das tendências motivacionais. Isto é, existe o nosso corpo, o mundo físico e nossos cinco sentidos; e existem também os diversos processos de atividade mental, nossas tendências motivacionais, nossa atividade de discriminação e classificação dos objetos, nossas sensações e o sujeito ou consciência subjacente a todos esses processos.
Entre as escolas de pensamento da Antiguidade que aceitavam a noção de continuidade da consciência, muitas eram escolas filosóficas não budistas e consideravam que o ente, o “eu” ou “si mesmo” que migrava de uma existência a outra era um ser indiviso e permanente. Essas escolas também afirmavam que o “si mesmo” era autônomo em relação aos componentes psicofísicos que constituem a pessoa. Em outras palavras, elas acreditavam ou afirmavam que existe uma essência ou “alma” da pessoa, a qual subsiste independentemente de seu corpo e sua mente.
A filosofia budista, ao contrário, não aceita a existência dessa entidade autônoma e independente. A visão budista compreende o eu ou a pessoa como um relacionamento interdependente e dinâmico dos atributos físicos e mentais, isto é, dos componentes psicofísicos que constituem o ser. Em outras palavras, um exame atento do nosso sentido de eu revela um fluxo composto de eventos físicos e mentais reunidos em padrões claramente identificáveis e dotados de certa continuidade temporal; tais eventos incluem nossos traços físicos, instintos, emoções, atitudes, etc.

Ora, quando encaramos essa interdependência de componentes físicos e mentais do ponto de vista do Supremo Yoga Tantra, podemos formar dois conceitos do que é uma pessoa. O primeiro se refere à pessoa ou eu temporário, quer dizer, nós tal como existimos no momento presente, e essa pessoa é rotulada em razão do corpo físico grosseiro e da mente condicionada; ao mesmo tempo existe a pessoa ou eu sutil, cuja designação depende do corpo e da mente sutis. O corpo e a mente sutis são entendidos como uma única entidade com dois aspectos ou facetas. O aspecto que tem a qualidade de consciência pura, que é capaz de refletir e tem a potência de cognição, é a mente sutil. A mesma entidade tem uma energia, uma força que direciona a mente para seu objeto – essa energia é o corpo sutil ou vento sutil. No Supremo Yoga Tantra, a unidade indivisível desses dois aspectos é considerada a natureza suprema da pessoa e identificada com a natureza búdica, a natureza essencial ou verdadeira  da mente.

[S.S. Dalai Lama no Comentário introdutório a: O livro tibetano dos mortos ou A grande libertação pela auscultação nos estados intermediários.  Composto por Padmasambhava, revelado por Terton Karma Lingpa, Traduzido por Gyurme Dorje, organizado por Graham Coleman e Thupten Jinpa. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. XV-XVI]

domingo, 23 de dezembro de 2012

TOLERÂNCIA COMPASSIVA



"A seguinte pergunta me intriga há muitos anos: apesar de nossos sentimentos confusos, é possível desenvolver uma aceitação incondicional de nós mesmos em vez de culpa e depressão?
Um dos métodos mais úteis que encontrei para lidar com esse impasse é a prática da tolerância compassiva. É um modo de atrair cordialidade para os sentimentos indesejáveis. É um método direto de vivenciar nossa  experiência em vez de rejeitá-la. Por isso, na próxima vez que perceber que foi fisgado, você pode sentir essa sensação com essa abordagem.
Ao contatar a experiência de estar fisgado, inspire para senti-la totalmente, deixando-a fluir. Essa inspiração pode ser profunda e relaxada, desde que lhe ajude a sentir a sensação, sem rejeitá-la. Então, ainda em meio a sentimentos ansiosos ou agressivos, à medida que expira, você relaxa e abre espaço para eles. A expiração não é uma maneira de eliminar o desconforto, e sim de desanuviá-lo, de diminuir a tensão em torno dele, de se conscientizar do espaço em que o desconforto ocorre.
Essa prática nos ajuda a desenvolver o maitri[i] porque tocamos em partes de nossa mente das quais não nos orgulhamos. Tocamos em sentimentos que achamos que não deveríamos ter, como sentimentos de fracasso, vergonha, de raiva assassina; todos os sentimentos politicamente incorretos como preconceito racial, desprezo por pessoas que consideramos feias ou inferiores, compulsão sexual e fobias. Entramos em contato com qualquer coisa que estivermos sentindo, sem a limitação de gostar disso ou não, inspirando e se abrindo. Então, expiramos e relaxamos. Continuamos a inspirar e expirar por alguns momentos ou por quanto tempo quisermos, sincronizando a respiração. Esse processo tem a propriedade inerente de atrair os sentimentos, assim como a respiração. Tocamos a experiência, sentindo-a fisicamente se isso nos ajudar, e a inspiramos.
Neste processo, transformamos a energia rígida, uma energia que repudia, em cordialidade e receptividade. Parece complexo, mas, na verdade, é muito simples e direto. Tudo o que precisamos fazer é inspirar e vivenciar o que está acontecendo, e expirar deixando a sensação fluir. É uma forma de trabalhar nossa negatividade e perceber que a energia negativa por si só não é o problema. A confusão emocional só começa quando nós não conseguimos suportar a intensidade da energia e nos descontrolamos. O fato de ter consciência de nossa energia é a última ação não agressiva, o último maitri.
A tolerância compassiva é uma prática solitária, mas também serve como um exercício preliminar para o tonglen, a prática de receber e dar [Neste Blog, já publiquei sobre a meditação tonglen, também retirado de um outro livro de Pema Chödrön]."

[Texto extraído de PEMA CHÖDRÖN. O salto: um novo caminho para enfrentar as dificuldades inevitáveis. Trad: Marisa Mottta. Rio de Janeiro: Gryphus, 2010. p. 102-104. Título original: Taking the leap – Freeing ourselves from old habits and fears]




[i] [Pema Chödrön explicou antes (p. 97) que maitri é uma palavra sânscrita que significa afeição em relação a todos os seres... e explicou que seu professor, Chögyam Trungpa, empregava esta palavra com o significado de “amizade ilimitada no tocante a nós mesmos, o que indica, com clareza que leva com naturalidade a uma amizade ilimitada, pelas outras pessoas”. Maitri, prossegue a autora, “também tem o significado de confiar em si mesmo, de confiar que temos todas as condições para nos conhecermos completamente sem nos sentirmos desesperançados, sem nos voltarmos contra nós mesmos em razão do que vemos”]

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta do VENERÁVEL YOUNGUEY MINGYUR RINPOCHE enviada no meio do seu retiro


Aqui neste Blog, no dia 8 de agosto de 2011, postei a Carta que o Ven. Younguey Mingyur Rinpoche deixou ao entrar em um tipo especial de retiro. Para os que não a leram, é só acessar a postagem. Todos ficaram apreensivos quando isto aconteceu. E todos permaneceram fazendo suas práticas e aspirando que tudo estivesse bem com Rinpoche em sua jornada. Neste mês de novembro de 2012, para alegria de todos, Rinpoche escreveu uma carta para sua mãe, para ser lida também nos monastérios e por todos os alunos que sentem conexão com ele. 

Este é o meu caso, desde que li o seu primeiro livro, traduzido no Brasil em 2007 – A alegria de viver: descobrindo o segredo da felicidade – do qual também postei um pequeno trecho. Posteriormente, em agosto de 2009, fui ver e ouvir Rinpoche pela primeira vez, quando ele transmitiu ensinamentos em São Paulo e lançou o seu segundo livro – Joyful wisdom: embracing change and finding freedom. Na semana seguinte, Rinpoche foi para o Rio de Janeiro e, no KTC, deu ensinamentos, além de dar iniciação de Mahamudra I, que eu me senti feliz em poder receber e retornei com o compromisso de fazer as práticas e aguardar o seu retorno para continuar recebendo ensinamentos.

Confesso que como iniciante nos estudos e práticas budistas, tudo me encantou, mas, principalmente a alegria, espontaneidade, simpatia e a forma como Rinpoche transmite o Dharma envolve a plateia. Ele é pura alegria de viver!

Senti tal contentamento quando fiquei sabendo que iríamos ter acesso a esta segunda carta, que achei por bem trazê-la aqui para o Buda no Capibaribe e contribuir com sua divulgação, compartilhando-a com os seguidores do blog. Na minha humilde opinião, estou fazendo uma prática budista ao fazer isto porque guardo a lembrança do sorriso de amor e compaixão de Rinpoche a ponto de fechar os olhos e relembrá-lo.

O original foi traduzido para o inglês por Daniela Labra e Dahl Cortland e encontra-se publicado em: http://learning.tergar.org/2012/11/29/mingyur-rinpoche-sends-a-mid-retreat-letter/Desta versão, fiz a tradução para o português. Cópia do original encontra-se no site do Tergar, acima citado.

No site, há a seguinte explicação: 
"Mingyur Rinpoche está atualmente em um retiro solitário prolongado nos Himalaias. Na verdade, ninguém sabe exatamente onde ele está. Na tradição dos grandes Mestres de meditação do passado, ele está vagando livremente sem nenhum plano fixo ou agenda. Seus únicos companheiros são um compromisso inabalável para o caminho do despertar e um desejo sincero de beneficiar os outros. Durante todo esse período, ele provavelmente estará gastando seu tempo meditando em cavernas e ermidas em lugares remotos. Enquanto isso, a Comunidade de Meditação Tergar continua a prosperar em sua ausência. Os Lamas Tergar e instrutores estão realizando workshops de meditação e retiros em todo o mundo (incluindo online) e há muitos grupos e centros que continuam a seguir seus ensinamentos. Esperamos Rinpoche retornar no final de 2014 ou início de 2015." 


Para a minha  amorosa e compassiva mãe, família, mosteiros e todos os meus alunos,

Devido às bênçãos de todos os lamas, estou em muito boa saúde e não tenho tido obstáculos. Eu tenho praticado em vários lugares remotos de retiro.
Mãe, eu quero lhe garantir que não há necessidade de se preocupar comigo. Por favor, medite, pratique e faça retiro, tanto quanto você puder.
Eu peço que todos os que vivem nos mosteiros sejam harmoniosos e mantenham a disciplina pura. Por essa razão, sempre ouçam, reflitam, meditem, e mantenham a sua ligação à linhagem tanto quanto vocês são capazes.
Para todos os alunos com quem tenho uma conexão, eu peço para perseverar, tanto quanto possível na sua prática de bondade amorosa e compaixão, shamatha, vipasyana, Ngöndro, etc, e especialmente se você tiver tempo, faça tantos refúgios quanto você puder, independentemente de quão longo ou curto seja. Não se esqueçam de praticar todos os dias de suas vidas, façam amizade com todas as adversidades e acolham tudo o que acontecer no caminho.
Finalmente, como já mencionei, uma vez que a minha saúde tem estado boa, onde quer que eu vá eu pratico sem percalços e minha experiência é florescente, por isso não há necessidade de qualquer um de vocês se preocupar comigo! Do meu lado, eu vou mantê-los sempre em meu coração e em minhas preces. Logo vamos todos nos encontrar e estar juntos novamente.
Isto foi respeitosamente escrito pelo chamado Mingyur Tulku na terra nevada de Lapchi, o lugar sagrado de prática do grande yogi Milarepa.



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O MEDO


Todos nós, sem exceção, em algum momento da vida, tivemos medo. Medo do bicho-papão, medo de fantasmas, medo de enfrentar uma prova no colégio, medo de não dar conta de algum compromisso assumido, medo, medo, medo...

Enquanto estava preparando este texto, deparei-me com a seguinte mensagem da Nação Nordestina no Facebook:

                      Hoje, 22 de agosto é o Dia do Folclore Brasileiro! No Nordeste o que mais temos são lendas do nosso Folclore, quem ai nunca teve medo do "Papa-figo", Personagem muito popular, que sofre de uma terrível doença, cuja cura é o fígado de crianças? Qualquer  danação minha Mãe já dizia: - Eu vou chamar o Papa-figo!!!!


Também hoje, uma livraria publicou na sua página do FB: Saci, Mula-sem-cabeça, Boitatá... quem lembra das histórias? E quem tinha medo da Curupira?! \o/ Feliz Dia do Folclore!

Quantos, até hoje, morrem de medo de morrer! A morte – a maior certeza que todos temos na vida. E isto amedronta tantos que até evitam ouvir, falar ou refletir sobre. Tanto que é esta uma das causas de sofrimento: vive-se como se nunca fosse morrer, como se a morte fosse uma grande surpresa.

Mas, enquanto estamos atravessando este estágio do bardo que vai do nascimento até a morte, nos enredamos em tantos medos, que achei importante destacar um texto de uma mestra do budismo tibetano - Pema Chödrom – cujos textos sempre me tocam o coração pela forma como ela nos permite utilizar o Dharma no nosso cotidiano ocidental.

O primeiro capítulo do livro de Pema Chödron tem como título “Familiarizando-se com o medo”. O capítulo trata do medo que sentimos ao iniciarmos uma jornada. No caso específico, a jornada espiritual. E ela afirma: “Iniciar uma jornada espiritual é como entrar em um barquinho muito pequeno e sair pelo mar em busca de terras desconhecidas” (p. 1). Dali, eu escolhi alguns parágrafos que me remeteram a várias reflexões.  Esclareço que fiz um rearranjo dos parágrafos a fim de seguir o meu raciocínio. Aqueles que se sentirem conectados mergulhem na leitura do livro todo. Não sintam medo! É maravilhoso.

“O medo é uma experiência universal vivida até mesmo pelo menor dos insetos. Quando passamos pelas poças formadas pelas marés e estendemos a mão para os tenros corpos abertos das anêmonas marinhas, elas se fecham. Essa é uma reação espontânea, comum a todos. Não há nada de terrível em sentir medo quando enfrentamos o desconhecido. Faz parte de estar vivo e é algo que todos compartilhamos. Reagimos contra a possibilidade da solidão, da morte, de não termos nenhum apoio. O medo é uma reação natural ao nos aproximarmos da verdade” (p. 2).

“Na verdade, qualquer um que se coloque à beira do desconhecido, inteiramente no presente e sem ponto de referência, experimenta a sensação de não ter onde se apoiar. É aí que nossa compreensão se aprofunda, que descobrimos que o momento presente é um lugar bastante vulnerável, e essa experiência pode ser completamente terna e desconcertante ao mesmo tempo.

Quando iniciamos nossa exploração, temos todo tipo de ideal e expectativa. Procuramos respostas que satisfaçam anseios muito antigos e a última coisa que queremos é um reencontro com o bicho-papão. Outras pessoas, é claro, tentam nos avisar. Lembro quando recebi, pela primeira vez, orientação sobre meditação. A pessoa que me instruía descreveu a técnica, explicou-me como deveria praticar e acrescentou: 'Mas, por favor, não saia daqui pensando que meditar seja o mesmo que tirar férias da insatisfação'... (p. 2-3).

Estamos falando de conhecer o medo, de nos familiarizarmos com ele e de olhá-lo bem nos olhos – não como um método para resolver problemas, mas como uma total desconstrução de nossas antigas maneiras de ver, ouvir, pensar, sentir cheiros e sabores” (p. 3).

“Quando nos interessamos pelo budismo e decidimos descobrir o que ele tem a nos oferecer, logo percebemos que existem diferentes pontos de vista em relação a como podemos prosseguir. Com a meditação panorâmica, começamos a praticar a atenção plena, estando totalmente presentes em todas as nossas atividades e pensamentos. Na prática Zen, recebemos ensinamentos sobre o vazio e somos desafiados a nos conectar com a aberta e ilimitada clareza da mente. Os ensinamentos vajrayana nos apresentam o trabalho com a energia de todas as situações, encarando tudo que surge como inseparável do estado desperto” (p. 1).

Faço um parêntese para refletir que seja qual for a linhagem com a qual você se conecte, o importante é você entender e praticar este ensinamento:

Deixar de praticar o mal,
praticar apenas o bem,
purificar a própria mente:
este, o ensinamento dos budas.

(Cap. XIV – Dos budas. In: Darmapada: a doutrina budista em versos. L&PM Ed., p. 79).

E prossegue Pema Chödron: “Qualquer uma dessas abordagens pode nos atrair e alimentar nosso entusiasmo, fazendo com que desejemos ir mais adiante. Entretanto, se estivermos dispostos a ir além da superfície e a praticar sem hesitação, inevitavelmente, em algum momento, sentiremos medo” (p. 1).

“... A verdade é que, a partir do momento em que realmente iniciamos esse processo, nós nos tornamos cada vez mais modestos. Não haverá muito espaço para a arrogância que pode resultar do apego a nossos ideais. A arrogância que inevitavelmente surge será incessantemente aniquilada pela nossa própria coragem de dar mais um passo adiante. Essas descobertas são feitas por meio da prática e não têm nada a ver com qualquer tipo de crença. Estão muito mais relacionadas com a coragem de morrer, com a coragem de morrer continuamente” (p. 3).

“Ninguém nos aconselha a parar de fugir do medo. .. Uma vez perguntei a Kobun Chino Roshi, mestre Zen, como era seu relacionamento com o medo e ele respondeu: ‘Eu concordo, eu concordo’. Entretanto, o conselho que geralmente recebemos nos diz para adoçá-lo, atenuá-lo, tomar um comprimido ou procurar distração. Usar todos os meios para fazer com que ele se vá” (p.5).

“..., considere-se com sorte na próxima vez em que encontrar o medo, pois é nesse ponto que entra a coragem”.

E  a autora finaliza o capítulo:
“O truque está em continuar explorando e não desistir, mesmo quando descobrimos que algo é diferente do que imaginávamos... nada é como imaginamos... O vazio não é o que pensávamos. Nem a atenção plena, o medo ou a compaixão. Amor, natureza búdica, coragem. Essas palavras são códigos que representam o que não conseguimos compreender intelectualmente, mas que qualquer um de nós pode sentir. São palavras que nos indicam o que a vida realmente é quando deixamos que as coisas se desintegrem e nos permitimos estar ligados ao momento presente”.

[PEMA CHÖDRON. Quando tudo se desfaz: orientação para tempos difíceis. 3 ed. Trad. Helenice Gouvêa. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005. Título do original: When things fall apart: heart advice for difficult times).

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PACIÊNCIA


No seu livro Not for happiness: a guide to the so called preliminary practises, DZONGSAR JAMYANG KHYENTSE, antes de iniciar os ensinamentos sobre a prática do Ngöndro (práticas preliminares do Vajrayana),  escreveu o que ele denominou de “Algumas palavras de conselho antes de começar”. O primeiro destes conselhos - Paciência: você cometerá erros - me pareceu útil para qualquer um de nós que vai, ou não, praticar o Ngöndro.

PACIÊNCIA: você vai cometer erros
Costumo dizer aos praticantes, especialmente os novatos, que ninguém pode aprender tudo o que há para saber sobre como fazer o Ngöndro corretamente e, em seguida, começar a praticar. Só é possível saber tudo, inclusive como realizar todos os rituais corretamente, uma vez que a prática tenha sido concluída e plenamente realizada. Inevitavelmente, portanto, você vai sempre cometer erros, grandes e pequenos, e é através desses erros que você aprende. Nenhum estudante de línguas imagina que pode aprender o vocabulário inteiro e a gramática de uma nova linguagem de uma só vez e logo em seguida falar perfeitamente. Nós pegamos a linguagem à medida que avançamos, cometemos erros, tropeçamos nas  palavras aqui e ali, e improvisamos. Eventualmente, porém, tudo vem junto e de repente descobrimos que somos fluentes. A prática do Dharma segue um padrão semelhante, e a maior parte do que aprendemos vem a nós através dos erros que cometemos à medida que praticamos.

Tenha em mente que entre o início da prática e a consecução de sua primeira experiência real de dharma será um longo período de esforço intenso. Mas, uma vez que você tenha experimentado o primeiro gostinho, você será capaz de praticar em cada situação, em todos os cantos do mundo e com toda espécie concebível de pessoa. E não só você vai relaxar em si mesmo, mas você não vai mais sentar em julgamento de outros para não praticar "corretamente".


PATIENCE: you will make mistakes
I often tell practitioners, especially beginners, that no one can learn everything there is to know about how to do the ngöndro correctly and then start to practise. It is only possible to know everything, including how to perform all the rituals correctly, once the practise has been completed and fully accomplished. Inevitably, therefore, you will constantly make mistakes, large and small, and it is through these mistakes that you learn. No language student iamgines thay can learn the entire  vocabulary and grammar of a new language in one go, then immediately speak it perfectly. We pick up language as we go along, make mistakes, stumble over words here and there and improvise. Eventually, though, everything comes together and suddenly we find we are fluent. Dharma practise follows a similar pattern, and most of what we learn comes to us through the mistakes we make as we practise.
Bear in mind that between starting to practise and the achievement of your first real taste of dharma will be a lengthy period of intense effort. But once you have experienced that first taste, you will be able to practise in every situation, in all the corners of the world and with every conceivable kind of person. And not only will you relax in yourself, but you will no longer sit in judgment on others for not practicing "properly".


[DZONGSAR JAMYANG KHYENTSE. Not for happiness: a guide to the so-called preliminary practises. Boston: Shambhala, 2012).